terça-feira, 19 de agosto de 2008

DILÍCULOS*

Poeta, permita-me
Permita-me tocar-te o braço em gratidão por tuas palavras
cujas delgadas tessituras
tocam a flor de nossas mais profundas águas
E nelas provocam dilículos* delicados,
que arremetem contra as margens
E aos poucos as envolvem e as
dissolvem
Expandindo assim a película do espelho
que mesmo não refletindo por completo
nos faz mais anchos, mais imersos
mais inteiros


*"Dilículos" não está no dicionário, mas são aqueles círculos concêntricos à flor d’água. E se não for fica sendo.

ACIDENTE BIOGRÁFICO

A ilha, imóvel, absoluta
não arrisca um passo.
A maré lhe mordisca as costas
o pasto lhe palmilha as rugas
e ela
- lá -
em sua pachorra irresoluta de mamífero encalhado
água por todo lado.

MANADA

Incrustada na selva, a grande manada resiste.
Açoitadas pela tempestade suas presas inocentes
são mantidas em riste não como uma ameaça
mas como os braços tateantes de uma cegueira súbita
e com eles investe contra o imponente curtume da mais violenta
treva.
Suas lanças circunstanciais devastam séculos,
revoltam espíritos,
atiçam entidades,
mas ela avança, herética, pois seu contendor é bem mais que
mitológico
e não haverá chance se não abrir mão de sutilezas.
Após semanas de retirada,
bafejantes e já quase em vestígios,
os sobreviventes alcançam o inalterado exílio do templo
absoluto, milenar,
e entre os sacerdotes do vento
encontram enfim alívio para sua soledade
então se saúdam se abraçam se beijam
e arrebatados pela mais cruel felicidade
sacam de seus flautins e estufam de cores
o silêncio monacal
enquanto o líder suplente
diante de uma assistência
muda
deposita num graal
o último dente
de Buda

INSULAR

Nas primícias do mundo
bem antes dos polegares
e de toda moda bípede que assolou o planeta
o mar caminhava sobre a terra.
Era cair a noite e ele se erguia impetuoso
do seu igarapé rochoso
para arrojar-se nas campinas, nas ladeiras
com sua farta cabeleira prateada, seu coração de horta
enluarada.
Guardado o sol era hora de aventurar,
de estar liberto do desígnio das marés,
dos queixumes dos afogados
e todo o seu corpo, arrebatado, se expandia, se incendiava
e ele calçava as botas encharcadas de salitre
e ia arpejar os frutos, dedilhar as flores
e adormecer as feras que, aquecidas em seu regato,
caçavam cardumes de sonhos.
Durante milênios as têmporas foram refrescadas
as caças temperadas.
Então veio a propriedade, a tempestade.
E com ela balaustradas multas chacinas muradas vingança
moeda
Foram estabelecidas as regras, e o mar
com sua ingenuidade oceânica, confiou naqueles seres.
Hoje, amargurado, enlouquecido
mastiga crianças, oculta jazidas
dissolve os aterros
e se arremessa suicida contra os rochedos
onde as tribos primeiras
lhe ofereceram

sacrifícios

DOIS DE JULHO

Uma criança galga os degraus de mármore e,
triunfante,
encarapita-se no leão do monumento,
imortalizado no ápice de um rugido que parece ter,
na gênese do seu fomento,
a velada e insidiosa intenção de promover
o inocente movimento
às portentosas conquistas de galvânicos heróis.

Ah, pequeno aspirante à estampa de futuras cédulas!

Quem dera
quem dera pudesse ser feita em paz tua vontade
e viesse a tua empunhadura
a domar desta fera
a veraz voracidade...

COMBUSTÍVEL

Gosto dessa cidade quando as árvores empalhadas
arriam seus calções brancos e urinam um
orvalho morno

Gosto dessa cidade
quando os viadutos se elevam como uma prece
e sua arquitetura absurda
ressona como um embrião aquecido
e sem memória

Gosto dessa cidade quando poucos olhos a espiam
e ela se desloca, mineral e sinuosa
num imperceptível movimento em direção
ao litoral

E suas narinas expelem automóveis sem destino

E os semáforos crepitam
emitindo os pequenos estalidos
de seus corações de vidro e celofane

Gosto dessa cidade quando os monumentos podem
coçar o joelho
E a alma de seus riachos ancestrais
mina a sinalização corrente
subindo as ladeiras em velocidade

combustível

BAFEJO

Ao lê-los
- os poetas -
Faze-o com certo zelo
Sem buscar vincar-lhes fulcros
ou insumar vertigens
donde emanam
apenas bocejos.

Não os esprema
- os poemas -
Visando extrair-lhes suco:
Aquieta-te ante teu tórax timbrado
Condescende aos teus ossinhos ponderados:

No ressonar é que residem as ressonâncias
que tão violentamente
espantas.