sábado, 24 de dezembro de 2011

OSTINATO CANTABILE

tenho mil bocas e
nelas as vozes se trancam se perdem
se trincam
se despem em bocejos ocos
que o corpo ensopado
esguicha
em guinchos mortos

tenho mil gotas de
sangue a circundar-me as
retinas
umedecidas
emudecidas
a quem a beleza
fere com suas fartas
quilhas

tenho o corpo
cunhado em calendários
banhado no pranto
calcinado das chacinas

sou o verme crocitante
sobre o cancro
aberto
e no varal deserto
é minha a mortalha
a remir-se em
crina

tenho calos nas
línguas
por isso
calo
por isso empalo
meus verbos no vértice
feito hélices que
ativas
manejarão enfim
estas vozes
suadas calosas
estéreis

mas trato de me
esquivar
de estimar o meu
silêncio
de resguardar o
fóssil pênsil que habita
minha carcaça e
à deriva
aderno
exposto às traças
como um totem penso
desalojado do
tempo

meu corpo é um penedo
insólito
de um dorso imenso
de cipreste
onde o tempo
instaura marcos
a passos lentos
como um druida
oficioso que decalca
um edito
em tons rupestres

e vem a noite
com seu curtume
extenso
arrastando aragens
que iluminam um
a um os meus
sentidos

mas com ela vem o coice
estampado em
estampidos
arremessando o corpo
jovem
contra previsões
provisões
prevenções
proteções

tenho robustos corações
enluarados
músculos onde há frêmito ânsia
paixão
mas prevalece a pronúncia agreste
da evasão
e evoco deuses
mas que nada
tudo é
vão

pois
minha alma é pequena
mercenária
e tenho bocas e as bocas
ruminam beijos como se
cravassem selos
em mensagens pesarosas e
quando se abrem em prosa são
como as alimárias
do destino desprovidas
de senso tino
direção

sou feito de mágoa e
meço o arremesso com pés
descalços
não há mais espaço
para imprecisões
é preciso firmeza postura
esteio
e em meio a tropeços
e decisões
ergue-se ao pódio
a angústia
feita música feita
víscera dotada
de uma mística minúcia
aliciante

ela galga os andaimes que
me sustentam e delimitam e os
dinamita
desimanta minhas cinzas e as
evola
lançando-as no infinitivo
como um mantra
maldito dopado
intermitente

sou feito de fúria e desço
aos pélagos
obstinado
quase já não tenho pulso
e vejo o
quanto são escassos
meus recursos

sigo em frente mas
ao redor as cercas se
multiplicam

percorro as ruas como
um pária
avulso

me é negado o acesso
e é este ser
possesso que em mim
se espraia
que não permite que nada
se edifique

estou a pique
o ar me rouba a língua e
à míngua

me despeço

1995

CORRESPONDÊNCIA

ela me escreve cartas que nunca envia
“cartas de amor”, me diz, “para que te sinta aqui”

lembro disso numa tarde cinzenta
pássaros rabiscam o céu em desespero

mas ela enviou uma das cartas
incendiária, possante
forjada
na pira funerária
dos amantes

remexo as cinzas dessa carta
como os pássaros ao céu
e dela emana o calor
de um feriado
em meio à semana

e sinto que ela avança feito
água entre pedras
e em suas ancas
as curvas de um rio
um aconchego amplo de enseada

o amor
é a voraz enxurrada
num suave movimento de quadril

2011

INTIMAÇÃO

Mal a conheço e dorme, tranquila.

Me aproximo e aspiro o espectro suave
deste corpo
morno e rarefeito
do qual sei muito
pouco
quase nada.

Menos ainda
sobre a alma que a estofa
ou enovela
- como um perfume
que do travesseiro evola.

Apenas que ressona sem cuidado,
um desconhecido ao lado.

Conversamos, é fato
e isto bastou para entrevermo-nos
intuirmos qualidades, alinhar
afinidades ou
apenas
desfiar amenidades.

Mas não:
creio havermos falado
coisas íntimas
(ela mais que eu),
tendo afirmado inclusive que jamais
contara isto (ou aquilo)
a ninguém.

- Isso nos fez mais próximos
ao arder a centelha
dos corpos.

E nos apertamos um ao
outro
como a carne
agarra
os ossos.

2005

NAVEGÁVEL

Uma linda manhã
ao lado de uma linda mulher
- que mais se pode querer?

O pensamento do corpo é distender
seus prazeres,
é certo,
mas entre tantos afazeres
que mais pode o corpo fazer?

Pequenos odores, rastros de fugaz felicidade
a lembrança breve,
nua, adormecida,
entregue,
descendo ao profundo impalpável de si
como a escultura que palpita
sob o bloco de mármore
- como a chuva caindo
dentro de uma árvore.

Fragmento de mar, a lembrança fugidia
do corpo, esgarçando
a espessura onde dormita
a fluidez improvável
- como na inapreensível
densidade
de uma rocha
navegável.

2005

ROTINA

da farra, do copo
do jogo
o sol
chegou de fogo

INSIGHT

um teto solar
pra iluminar
a massa cinzenta

AS IDÉIAS SÃO CRIATURAS GENIOSAS

As idéias são criaturas geniosas.
Vaidosas, é preciso contemplá-las com desdouro,
como lençóis num quaradouro.
Querem ser admiradas, enaltecidas
de tal maneira exclusiva
que se inflam tanto
que nos enchemos delas.

Mas se nos vemos mais que a elas
orgulhosos por tê-las concebido
retiram-se na espiral de um sumidouro.

É preciso olhá-las de frente
mas a abordagem não deve ser rente:
chegar até elas exige disfarce
trajar-se de margem para que se dispam
e nuas
encostem a carne na sua.

2005